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A lucidez e a perspicácia de Paulo Rangel

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.10.08

Por mero acaso (mas será que há meros acasos nesta vida?), apanhei a entrevista de Maria Flor Pedroso a Paulo Rangel na Antena 1.

Os pontos essenciais da vida actual do PSD e desta estranha época de transição foram abordados.

Interessante a sua sensatez e competência, em alguém que nos parece tão jovem! E sobretudo a sua lucidez e perspicácia.

Gostei de o ouvir dizer, por exemplo, que se aproximou em tempos do CDS, que chegou a colaborar num projecto. E que simpatiza com a ideia de uma nova AD. Que agora "não está em cima da mesa", pelo menos "nunca antes das eleições". Que "a direita devia reflectir em conjunto" os desafios actuais.

 

Bem, esta ideia agradou-me. É que tremo só de ouvir falar no centrão. E há muitas vozes (e mentes) amigas dessa solução. Esta foi, aliás, uma das armadilhas que a jornalista tentou, aqui a propósito da abertura, para reflexão e debates, do PSD a outras áreas próximas.

 

Outra armadilha, já inevitável (e que já se torna cansativa aliás, pois é repetida pelos jornalistas caseiros e pelos comentadores políticos domésticos): quando é que o PSD diz, afinal, quais são as obras públicas com as quais está de acordo?

Paulo Rangel lá explicou com toda a paciência que tudo depende da nova conjuntura global e dos estudos custo-benefício. (Estudos cuja única prova de existência parece ser as contas exorbitantes que foram analisadas pelo Tribunal de Contas...)

 

Paulo Rangel a revelar perspicácia e lucidez quando se distancia desta onda de "neo-socialismo" como reacção à crise financeira global. Sugere uma análise adequada, uma capacidade de adaptação à situação actual e aos desafios que teremos de enfrentar. Situa-se, assim, entre uma social-democracia e um liberalismo económico, com um Estado forte, mas "atlético, ginasticado". Achei piada. (É que o Estado está a "engordar". E de uma forma incomportável.)

 

Bem, há excertos da entrevista que me escapam agora. Está online na Antena 1. Quanto a mim, e uma vez mais, fiquei favoravelmente impressionada com o seu discurso. Achei surpreendente, no entanto alguém, que ao meu olhar é tão "certinho" e "previsível", escolher o tema musical da Amália "Uma estranha forma de vida", aqui pelo Caetano Veloso. Como as pessoas acabam sempre por nos surpreender! Isso é que é interessante, afinal de contas! Não acham?

 

 

publicado às 12:16

Uma civilização em declínio a parodiar-se a si própria

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.10.08

O título deste primeiro capítulo nem é da minha autoria. Trata-se do tema de um ensaio que John Silva iniciou ao lançar-se na maior aventura da sua vida: conhecer o local de origem dos seus antepassados portucalenses. Já não era suficiente o acesso aos dados actualizados, a mapas halográficos, coloridos, a três dimensões e em tempo real! Precisava de ver tudo, de estar lá, de respirar o mesmo ar, calcorrear as suaves colinas antes cobertas de linhas arrumadas de videiras, ou planícies de clima suave, com pomares, ou as florestas de pinheiro bravo e eucalipto.

 

O ensaio já estava alinhavado. E fora o amigo, Joe Plumber, de uma forma absolutamente casual, a dar-lhe a ideia para o título. A meio da conversa Joe sai-se com aquela frase!

Bem, teremos de fazer rewind para apanhar a conversa no seu início. Ultimamente, John só se debruçava sobre o estudo da civilização europeia e, mais especificamente, da cultura portucalense. Tinha chegado à época que mais o fascinava. Uma época de transição, em que o poder político poderia ter alterado, se o quisesse, o rumo dos acontecimentos. Por qualquer razão, que John não conseguia entender, todos seguiram em frente, como se os acontecimentos fossem apenas circunstanciais e nada mais significassem. Vê-los seguir em frente e insistir nas mesmas velhas estratégias, alheios a todos os sinais, foi o que mais o impressionou. Mesmo naquele pequeno rectângulo, o local habitado pelos seus antepassados, que lhe era apenas acessível em mitos e lendas, e em poemas de tirar o fôlego.

 

Era uma sociedade que aliava a evolução a uma mentalidade mitológica. Fora assim que a conversa iniciara, com ambos a observar um mapa halográfico que se deslocava conforme os gestos de John. Ruínas de betão armado, gigantescas e circulares. 8 estádios de futebol, o jogo mais famoso da época, num país tão pequeno e tão pobre... Repara, o país esteve parado décadas, conforme registos de um economista da época, Medina Carreira, décadas sem crescer nada que se visse...

Incrível. Joe fixou as ruínas circulares ainda na dúvida: 8 estádios, dizes tu? Tens a certeza que as ruínas circulares são todas de estádios desse tal jogo?

Confirma-se. John adorou esse papel de impressionar o amigo. Mas há melhor... Um sorriso malandro iluminou-lhe o rosto moreno. Passados uns anos, e ainda mais pobres do que antes, planearam ainda um TGV, uma espécie de comboio ultra-rápido. Olha aqui... e com um floreado das mãos ágeis, lá surgiu o mapa do litoral. Para esta distância entre a capital, que tinha um nome poético, Lisboa, e outra cidade, a mais importante do norte, olha ali, Porto.

Incrível. Para essa distância ridícula!?

Eh! Mas não vais acreditar. Há mais... John saboreou o momento. O tal TGV ainda parava a meio do percurso.

Não, estás a gozar!

John abanou a cabeça a conter o riso. Uma ou duas paragens neste percurso. Tudo neste pequeno país na ponta do continente europeu os fascinava já. E isto já em plena crise financeira global. Podiam ter arrepiado caminho, mudado de planos, mas não.

O que me queres dizer é que era um país que se comportava como um país muito rico e muito maior em tamanho...

Exactamente! Mas não ficamos por aqui. Vês aquele espaço plano ali, a meio, mais para o interior? Mais um gesto circular e o mapa deslocou-se no ar. Era um mega-aeroporto! Em plena crise do preço do petróleo, o combustível rudimentar da época. Já tinham três aeroportos, e ainda foram construir aquele, na fase da subida do preço do combustível. E quando a companhia aérea mais importante estava já em graves dificuldades financeiras.

Joe sorriu. Já percebi porque é que achas essa cultura portucalense tão fascinante. Porque não é lógica! Porque desafia toda a lógica, aliás! Não segue um caminho razoável de evolução. É como se fosse mítica, não é?

É isso mesmo! Porque não vi isso há mais tempo? Este pequeno país, este pequeno rectângulo sempre seguiu sonhos, mitos! Dizem que era um povo muito resistente e combativo. Primeiro com os árabes, depois com os vizinhos espanhóis, muito mais numerosos. Aí pelo terceiro, quarto século de existência, lança-se na maior aventura de todas, em frágeis barcos de madeira, as caravelas, deslocam-se com o vento... E navegam por todo o lado. Foram os maiores navegantes da civilização ocidental. Criaram um verdadeiro império. Há vestígios deles em todos os continentes. Mas não são apenas vestígios visíveis... há outros vestígios...

Então, o que queres dizer é que, ao perder o império, essa grandeza perdida ficou innteriorizada na sua cultura, na sua mentalidade, na sua forma de agir, ao ponto dessas grandes construções fora de toda a sua lógica e das suas reais possibilidades, ser uma forma de manter o mito vivo? De um grande país? De um país rico?

Nem mais! Olha aqui. Desta vez não surgiram mapas, mas gráficos elegantes e curvilíneos. Todos os registos dos economistas da época o dizem, sobretudo Medina Carreira. Nessas décadas em que o país esteve praticamente parado, gastaram acima das suas possibilidades. Preocuparam-se mais com o marketing político, falar nas televisões, eram écrans de informação pré-programada por estações que se pagavam com publicidade, depois explico-te... iludir os cidadãos do país, levá-los a acreditar que o país estava bem e que não ia ser afectado pela crise financeira global.

Um país a parodiar-se a si próprio! Uma cultura, uma civilização que não aceita o seu declínio... Olha, o tal autor que tu admiras tanto e de que já me falaste, o Saramago, também falava nessa cegueira...

Acabas de me dar o título ideal para o ensaio: Uma civilização em declínio a parodiar-se a si própria! Temos muito poucos exemplares de civilizações assim, tão interessantes do ângulo do delírio mitológico!

Os gregos também eram delirantes... Joe sorriu de novo. Aquela fórmula da gestão social, do funcionamento de uma sociedade ideal, a democracia...

Sim, essa fórmula foi brilhante, e muito útil.

Pensar que o ocaso de uma civilização como essa, a portucalense, poderia ter sido evitada.

Bem, o ocaso dar-se-ia de qualquer modo, não dependia só deles. E deixou-nos tanta coisa! Autores magníficos! Alguns cientistas, inventores excepcionais!

E a sua gastronomia!

Não me fales da gastronomia... John suspirou. Os vinhos! A descrição dos seus vinhos é de me levar à agonia!

 

O nosso luso-descendente já tinha o título para o seu ensaio e foi nestas circunstâncias, de uma conversa com o amigo. Nessa noite sonhou com as ruínas dos 8 estádios de futebol... a transformar-se em enormes caravelas, as velas brancas enfunadas ao vento... a mover-se lentamente... ao longo de campos verdes e florestas de pinheiros bravos, castanheiros, sobreiros, oliveiras, pomares alinhados, vinhas arrumadas em suaves colinas... As velas brancas, como nuvens, sobre o verde da copas das árvores... contra um céu muito azul... Tudo agora extinto, mas vivo, ainda vivo dentro de si. Agora sabia, agora compreendia o mito portucalense. As caravelas sulcavam os campos, as velas enfunadas, como nuvens...

 

 

 

publicado às 14:39

O OE anunciado, encenado e empacotado (finalmente...)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 16.10.08

Até ver, o OE 2009 anunciado, encenado e empacotado (finalmente...) pareceu-me à medida de um ano de eleições. E ainda bem, digo eu, que é ano de eleições.

Porquê? Porque os cidadãos que realmente contribuíram para o controle do défice - os que trabalharam a vida inteira, os que trabalham e produzem, as micro, pequenas e médias empresas - que foram liofilizados por este governo, com impostos, abusos fiscais, penhoras, ASAE, etc., podem agora ver em parte corrigidos esses erros, abusos e excessos de zelo.

Imaginem se não fosse ano de eleições! Nem estes cidadãos veriam estas correcções. Percebem? Não se trata de nenhum favor ou sequer bondade governamental, trata-se de uma correcção.

Chamar-lhes "medidas" é que já é esticar o elástico até partir. "Medidas" teriam sido outra coisa. E teriam começado a ser há 3 anos...

No essencial, a mentalidade da quadriga socialista está lá: o novo-riquismo está lá, a cegueira está lá, e a surdez também. Está tudo lá.

Os mega-negócios, as mega-empreitadas, os grandes investimentos públicos estão lá.

A quadriga socialista não vive no séc. XXI, nem sequer vive na realidade. Vive num tempo que já passou e há muitos muitos anos...

Mesmo culturalmente, a quadriga socialista funciona no pensamento mágico das "sociedades mitológicas".

 

Se nos projectarmos no tempo, num futuro longínquo, o que ficará desta época de transição, quais os seus vestígios? É o exercício que irei fazer a seguir. Lancei-me no ano 2154, achei que era uma boa época para os meus dois personagens, um luso-descendente, John Silva, e um americano, Joe Plumber, da família do Joe, um canalizador que ficou famoso por entrar no último debate, o debate decisivo, de dois candidatos à presidência do império mais evoluído à época...

O primeiro capítulo já tem título: "Uma civilização em declínio a parodiar-se a si própria". O que é que acham?

 

 

publicado às 13:01

Mais Estado? Para quê?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.10.08

Só se for para estender um pouco mais a sua mãozinha sôfrega na área da grande finança, ou para se meter onde não é chamado como tem feito até aqui (ASAE, abusos fiscais, casamento, divórcio, organização familiar, adopção, cartão do cidadão, qualquer dia são todas as áreas do privado, das nossas vidinhas...)

 

Não é certamente para se tornar mais eficaz naquilo que realmente lhe diz respeito, porque aí tem encolhido de forma sistemática: segurança, justiça, saúde, educação. No emprego, consegue verdadeiros milagres estatísticos! Na supervisão e regulação, é praticamente inexistente.

 

Este aproveitar a onda, como um surfista, a tentar contrapor a crise financeira global com a pureza e bondade estatal...

Depois do OE 2008 e do anunciado OE 2009 quem é que ainda acredita na pureza e bondade do Estado?

 

O cidadão comum já sofreu na pele os resultados das suas grandes opções, prioridades, estratégias e medidas. Já dormiu na rua quando as fábricas e empresas fecharam repentinamente. Já passou dias na rua quando lhe fecharam os serviços de saúde. Já marchou na rua quando lhe alteraram o estatuto e as funções profissionais, no ensino. A partir de certa altura calou-se e conformou-se.

No discurso de 5 de Outubro o Presidente tentou animá-lo e inspirá-lo a confiar em si mesmo e nas suas capacidades, criatividade, agilidade, essas qualidades tão portuguesas. Sim, o Presidente tentou animar a malta, mobilizar vontades e criatividades.

 

Mas o Estado continua a tentar insinuar-se nas nossas vidinhas com o mesmo nível publicitário daquele spot da RTP1 que infantiliza o espectador, utilizando a linguagem que se utiliza com as crianças muito pequenas.

 

publicado às 15:01

... como vai ser capaz de lidar com os desafios que aí vêm?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.10.08

"Medidas" são estratégias inteligentes e criativas, intervenções ousadas e corajosas, para lidar com uma determinada conjuntura económica e social. É ser também capaz de prever. E agir.

 

Ora, a conjuntura actual exige conhecimentos e capacidades que este governo ainda não revelou. Estamos bem arranjados...

 

Pois se o governo nem percebe a realidade... se apenas soube investir na máquina fiscal (a máquina-maravilha que o alimenta), no marketing, nos estudos técnicos, nos mega-empreendimentos, nos mega-negócios?

Se as pessoas reais, concretas, só contam enquanto contribuintes e eleitores... e que emigrem se quiserem mas não lhe estraguem as estatísticas do emprego?

 

Como é que agora, que os desafios são de outra dimensão (e ainda ninguém sabe a dimensão da trapalhada...), pode estar à altura?

 

Dava-nos tanto jeito, para já, um Gil Vicente actual! Assim, o povo ainda se poderia rir um pouco nestas horas de aflição. O riso é terapêutico. Funciona como escape. E é criativo também.

É que até os entertainers já perderam toda a piada...

Sim, estamos mesmo bem arranjados...

 

publicado às 14:34

Se este governo não deu conta do recado até agora...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.10.08

O actual governo nunca revelou estar preparado para os desafios que tinha de enfrentar, e nessa altura os desafios eram de uma dimensão mensurável, digamos assim, como a redução do défice e a animação da economia. Mas o que vimos? 

 

Um governo eleito com um programa que não cumpriu. Um governo que liofilizou o país que trabalha e produz mas deixou de fora de qualquer controle ou supervisão a grande finança. O governo que substituiu a economia paralela de subsistência pela filosofia do subsídio. O governo que estrangulou as pequenas e médias empresas e favoreceu as mega-empresas e os grandes negócios.

 

Só cumpriu em duas áreas: reduzir o défice com a aspiração fiscal; ser um bom aluno de Bruxelas.

 

O país é agora um país pobre, onde se passa fome. O país é agora um país onde se acentuaram as diferenças entre ricos e pobres. O país é agora um país onde a emoção predominante é o medo. Ora, o medo não leva à acção criativa e à autonomia, leva sim à paralisia e ao conformismo. O país é agora um país aflito e desanimado.

 

Onde estão as pessoas reais, concretas, no OE 2008 e agora no OE 2009 (pelo que pude deduzir dos anúncios do PM)? Onde estão os direitos dos cidadãos que produzem e alimentam esta mega-empresa estatal? Onde estão sequer consideradas as suas necessidades básicas? "Complementos solidários"? Isso era a caridadezinha do Estado Novo! E chamam a isso medidas? 

 

Ouvir o que ouvi ontem, numa conjuntura destas, que o país não está no grupo dos países em recessão, mas no grupo dos outros... quando a Espanha aqui ao lado e a que estamos tão ligados já está em maus lençois...?

Ouvir dizer que o capitalismo, o mercado livre, é o culpado disto tudo, quando o próprio Estado funciona com as mesmas regras, como uma mega-empresa em roda livre, sem qualquer controle ou supervisão... nem qualquer informação aos investidores-contribuintes...?

Ouvir dizer que se irão manter as políticas, a tal filosofia dos grandes investimentos públicos em mega-empreendimentos, porque isso é que faz mexer a economia?

E ouvir dizer que se estão a tomar as medidas correctas e possíveis para proteger os cidadãos em situação mais precária e as pequenas e médias empresas? Definam "medidas", por favor.

Mas se até o conformismo é geral, se já ouço este argumento em comentadores nas televisões, este mimetismo preocupante que vem reforçar a filosofia oficial do governo? O governo está a fazer o que é possível. Isto é coisa que se diga? Ouvi bem?

 

publicado às 14:27

Quem no seu perfeito juízo pode garantir seja o que for?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.10.08

Até Obama - que para chegar onde chegou tem de ser protegido dos deuses, não vejo outra razão -, desceu lá das Alturas onde tinha subido na fase da loucura do estrelato, foi caindo na realidade e deixando a frase messiânica de quem pode tudo... e o que ouvimos cá em casa? Um ministro das Finanças esticar o gargalo e dizer que garante tudo. Para já, não pode garantir nada. Quando muito, quem garante é sempre o mesmo: o contribuinte.

 

Se havia quem temesse pelas poupanças, depois de o ouvir já não dormiu descansado. Mas é a este nível que chegámos.

 

Nem vou repetir aqui o que penso desta forma de gerir o poder, de lidar com o cidadão que só conta enquanto contribuinte e eleitor, e da forma como não responde às questões que lhe são colocadas pela oposição. Chamar a este sistema uma democracia... é risível.

 

Só lembrar que "responsabilidade" não é apenas uma palavra. São acções, iniciativas. Assim sendo, responsabilidade é um valor que não liga com o actual governo. Leiam e releiam o OE 2008 e estejam atentos ao OE 2009. Onde está sequer a noção de responsabilidade?

 

Ah, e responsabilidade quer dizer também assumir os erros. Onde já ouviram alguém deste governo assumir seja o que for? A culpa é do governo de coligação PSD-CDS/PP, do que herdaram (e já lá estão há 10 anos com um breve intervalo), dos EUA...

 

Há um dicionário óptimo no mercado que define estes termos até ao pormenor. Que dicionário andam a utilizar estas pobres criaturas?

 

publicado às 17:14

O hipopótamo, ao saber que um destino cruel está reservado ao animal da selva com a boca maior, fecha a boquinha e diz: Ui coitadinho do crocodilo!

 

Foi esta a atitude do governo português e dos responsáveis europeus perante uma crise financeira que é global. Primeiro, não havia crise. Depois, a crise era lá longe. E ainda: a crise não passa por aqui. A seguir: eles que a arranjaram, que a resolvam. De repente: bancos a ser nacionalizados... De repente a crise chegou e chegou para ficar.

 

"Mas não é culpa nossa". Percebi bem? Não foram também à fonte abastecer-se? Não seguiram a mesma lógica? A filosofia da ganância não era a mesma? Então e a regulação dos mercados financeiros?

 

E não deixa de ser irónico (ou mesmo risível) que um governo "modernaço" como o nosso actual governo, que se assume e comporta como uma mega-empresa (ver: orçamento de estado 2008, opções e políticas económicas, grandes negócios, ausência de informação aos investidores-contribuintes, operações de marketing, paliativos sociais, etc.), pretenda passar incólume e puro desta grande embrulhada.

 

E a sua filosofia do sucesso? Que tem sido medida pelos rich and famous, que são promovidos lá fora como as nossas grandes referências? Jogadores e treinadores de futebol, cantores de fado, etc.? Não tem sido precisamente essa a filosofia do sucesso? A sociedade-espectáculo? Até os programas televisivos o reflectem!? Telenovelas e programas de entretenimento de qualidade mais do que duvidosa, a reforçar todos os dias essa filosofia de novo-riquismo e de fama instantânea? (E de uma certa insanidade mental, diga-se de passagem).

 

E como explicam esta cada vez mais acentuada diferença entre ricos e pobres, com o número de pobres a aumentar? Vão-nos agora tentar convencer que esta nova pobreza, este novo fluxo migratório, surgiu agora por culpa da crise financeira dos EUA? Então neste estranho país não se anda também a promover, de forma boçal, comportamentos excêntricos, a ganância no fundo? Ainda temos muito que palmilhar até nos podermos considerar culturalmente do séc. XXI...

 

Os cidadãos portugueses e europeus têm toda a razão para se sentir inseguros, para não confiar nestes responsáveis políticos. A atitude correcta seria a da responsabilidade e da liderança. Prever e agir na altura certa. Mas como para prever teriam de ter visto... e não viram... ou então andaram a mentir descaradamente... estamos bem arranjados...

 

 

publicado às 11:22

A ganância é, em si mesma, estúpida

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.10.08

Brincar com coisas sérias. Fazer anedotas com o sofrimento alheio. Fingir que não é nada connosco. Culpar o vizinho. Maneiras muito pouco inteligentes de agora evitar assumir as responsabilidades.

 

Mas a ganância é, em si mesma, estúpida. E leva sempre a péssimos resultados. É como atirar as consequências para um futuro longínquo e para uns quaisquer outros que terão de ficar a arder. E há sempre quem fique a arder.

 

Em si mesma estúpida, e profundamente perversa, porque parte de um pressuposto: não dá para todos, uns são os privilegiados que ficam com o bolo, os outros que fiquem a comer a poeira. E daqui a sua lógica intrínseca: como não dá para todos, para haver ricos terão necessariamente de haver pobres.

 

Hoje dei comigo a magicar que estamos realmente a viver uma época de transição. De gerações que fizeram deste pressuposto uma realidade, que o aceitaram e até assumiram, uns no lugar da ganância, outros a lutar contra ela, para uma nova geração que vê para além destes horizontes fechados. Dei comigo a pensar que o grande desafio da Economia do séc. XXI será: Vamos procurar que dê para todos. 

 

Como? Já há métodos de estudo, de possibilidades, de previsões, metem todos os dados possíveis, misturam tudo, trocam variáveis, voltam a misturar, e dos computadorzinhos começam a sair vários padrões, cenários, e caminhos, estratégias possíveis.

 

Já estou a divagar. Onde ia eu? Ah, a grande embrulhada financeira! É claro que isto tinha de dar para o torto. Admiram-se?

 

O que me admira, realmente é, como disse Gomes Ferreira na Sic Notícias: "ninguém viu isto" ("ninguém" aqui para analistas, especialistas, consultores e gestores financeiros). "São pagos a peso de ouro e não conseguiram prever isto". Esta é a ironia de toda a estupidez da ganância. "Pagos a peso de ouro" para levar tudo à falência!? Se as consequências não fossem dramáticas até daria vontade de rir. Mas não dá.

 

Por incrível que possa parecer, é no meio desta barafunda toda que Obama se destaca pela inteligência, calma, agilidade e sangue frio! Uma coisa tive de reconhecer: em situação de crise, e de uma crise grave, o homem aguenta-se e ainda consegue inspirar confiança nas pessoas em pânico. Aqui revelou capacidade de liderança. Encarou a situação e lidou da melhor forma, segurando as pontas desta grande embrulhada. Colocou-se na posição certa: da responsabilidade. Dirigiu-se a democratas e a republicanos: Juntem-se e resolvam esta grande confusão. Apelou à calma nos mercados financeiros.

 

Sem qualquer sombra de dúvida, é um homem incrivelmente inteligente, ágil, perspicaz, a revelar aqui ter o sangue frio necessário para lidar com situações de crise. Se esta sua "descida à Terra" for para prevalecer, se não voltar às "nuvens do estrelato e do espectáculo", do marketing político, da auto-promoção, da arrogância e messianismo, começo a vê-lo como um President à altura do lugar.

 

Até porque se esgotaram as alternativas viáveis! Sarah Palin não pode, de modo algum, segurar o leme! Foi a escolha de marketing, não a escolha responsável. E McCain já perdeu a chama que trazia no início, já se arrasta, entre suspiros, até 4 de Novembro. Perante esta embrulhada, utilizou a fuga, queria evitar o tal debate com Obama no Mississipi. A ideia que dá é péssima. Como agirá numa futura hipotética crise?

 

Neste primeiro debate concordo com Martim Cabral no programa "EUA 2008" da Sic Notícias, quando diz que houve um "empate técnico". Mas o que realmente me impressionou no debate foi a postura, atitude, comportamento de Obama! Lembrou-me o Obama original, quando surgiu a lançar-se na corrida, antes de subir ao palanque. Esse Obama original inspirou-me simpatia na altura: auto-confiante de uma forma suave e conciliadora, perspicaz, ágil, entusiasmado, com garra, com ideias. Depois modificou-se (ou mostrou o seu verdadeiro estilo?): queria e podia tudo. E até a voz mudou, tornou-se áspera, de pregador. Mas aqui impressionou-me! Esteve à altura.

 

 

publicado às 17:02


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